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domingo, 13 de abril de 2014

Dados sobre a violência no Brasil

Ouço muito falar de violência crescente no Brasil e como é um país perigoso e etc. Mas é fácil jogar dados, números, que nada representam, que nada mostram as causas da elevada taxa de homicídios. E é claro que a classe média brada sobre isso como se estivessem a cada dia sendo mais ameaçada.
Mas não precisam temer! Se você tem o privilégio de ser branco no Brasil,  mal precisa se preocupar.

"Podemos verificar que no conjunto da população: 
• O número de vítimas brancas caiu de 18.867 em 2002 para 13.895 em 2011, o que representou um significativo decréscimo: 26,4%. 
• Já as vítimas negras cresceram de 26.952 para 35.297 no mesmo período, isto é, um aumento de 30,6%. 
• Assim, a participação branca no total de homicídios do país cai de 41% em 2002, para 28,2% em 2011. Já a participação negra, que já era elevada em 2002, 58,6%, cresce mais ainda, vai para 71.4%. 
• Com esse diferencial a vitimização negra passa de 42,9% em 2002 – nesse ano morrem proporcionalmente 42,9% mais vítimas negras que brancas – para 153,4% em 2011, em um crescimento contínuo, ano a ano, dessa vitimização."

E também:

"Outro dado preocupante do mesmo estudo é o total de óbitos da população masculina negra referente a causas externas evitáveis, que corresponde a 24,3%. A porcentagem inclui homicídios (48%), catástrofes no trânsito (24%) e outros acidentes, e é mais incidente na faixa de 15 aos 29 anos.

Na população branca, o índice total de óbitos por causas evitáveis equivale a 14,1%, sendo que a proporção relativa a homicídios é bem mais baixa, 36,3%. "Os negros ainda estão mais expostos à violência, justamente por causa do preconceito", lamenta Ana Amélia.

As maiores proporções de pobreza também podem influenciar o número de homicídios. Segundo o Ipea, a população idosa negra masculina que vive em domicílios com renda menor ou igual a meio salário mínimo é superior a 50%, enquanto a de brancos não chega a 30%. "Infelizmente, a desigualdade social conduz os negros com mais frequência à marginalidade", constata Francisco."

Ah, e importante, há apenas (ou não) 6,5% mais negros (o termo inclui preto e pardo) que brancos no Brasil.

Isso só mostra que temos problemas muito maiores no nosso país, do que a nossa mesquinha preocupação com nossa segurança.

Fontes:
http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2013/mapa2013_homicidios_juventude.pdf
http://www.conselhos.mg.gov.br/ccn/noticia/negros-sao-maioria-no-pais
http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2013/10/18/negros-sao-70-das-vitimas-de-assassinatos-no-brasil-reafirma-ipea/

sábado, 26 de março de 2011

O problema do lixo

Se consumimos, produzimos lixo. Consumimos demais, logo também produzimos lixo demais. Pense só no lixo que você produz por dia. Não parece muito, mas chega a cerca de 1kg diário. Agora imagine milhares de pessoas descartando essa quantidade de resíduos. E milhões de indivíduos, então?

Não à toa a cidade de São Paulo sofre com alagamentos após chuvas intensas, que são agravados pelo lixo deixado nas ruas, sejam entulhados ou até em sacos esperando o lixeiro passar. Não só isso, mas o despejo dos resíduos nas ruas impede passagem de pedestres e gera mau cheiro, além de uma cena um tanto desagradável para os circulantes. E como se o problema do descarte não fosse grande o suficiente, há ainda a dificuldade de se coletar todo esse lixo, e enviá-lo para o destino adequado, reciclando o que é possível.

Em São Paulo a coleta é feita pelo município em caminhões e os sacos de lixo só podem ser colocados na rua uma hora antes do horário de serem retirados ou após as 18h quando a coleta é noturna. Só que como muitas pessoas estão trabalhando ou em outras atividades durante o dia, fica difícil cumprir a lei, e o lixo continua sendo colocado nas calçadas muito antes da hora. Quanto aos resíduos recicláveis, nem todas as pessoas têm acesso direto à coleta seletiva e devem deixar em pontos que a fazem, ou então, como acontece não só em São Paulo como na maioria das cidades, deixar de separar e enviar tudo para a coleta convencional que vai para o aterro, ou até lixão.

Felizmente, algumas cidades procuraram formas de resolver esse problema. No Brasil, temos Curitiba como o exemplo a ser seguido: a coleta seletiva atinge 100% dos moradores, cabendo aos moradores a separação do lixo orgânico e reciclável. Entre as medidas de incentivo do governo da cidade, é destacada a conscientização dos moradores, assim como o estabelecimento de 90 pontos na periferia, onde 4 quilos de material reciclável pode ser trocado por 1 quilo de alimento. Dessa forma estima-se que 23% do total de resíduos da cidade seja reciclado, uma porcentagem bem alta se comparada à de São Paulo: apenas 1%.

Um pouco mais sofisticado é o sistema de Barcelona, no qual cerca de 30% da cidade conta com a coleta pneumática, em que os moradores depositam seus resíduos em escotilhas e o material é transportado por uma tubulação a 70km/h até uma central de coleta. O material aproveitável é reciclado e o restante, orgânico, é transformado em combustível para mover turbinas que produzem eletricidade. Pode-se dizer, portanto, que há quase 100% de aproveitamento dos resíduos.

O exemplo de Barcelona mostra que é possível resolver um problema, ao mesmo tempo em que se gera riqueza. Não só é evitado um descarte inadequado de lixo, que gera poluição e degrine a imagem da cidade, mas também aproveita-se para gerar material utilizável, evitando a extração de nova matéria-prima, e energia. É dessa e de outras formas que podemos criar projetos de sustentabilidade que, ao invés de ser um entrave para o desenvolvimento, acaba alavancando-o, resolvendo assim o grande impasse de se ser sustentável.


Baseado em informações da reportagem de capa da Veja São Paulo de 19 de janeiro de 2011

Reportagem do Jornal Nacional sobre o sistema de Barcelona, 08/05/2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Esquizofrenia moral brasileira

Há quem ache que todos os problemas do Brasil decorrem da corrupção e da ineficiência da lei no país. Infelizmente, poucos percebem que a raiz do problema encontra-se no paradoxo do discurso ético e moralista do brasileiro, que não corresponde às suas ações.

O típico comportamento brasileiro é reclamar da corrupção entre políticos, culpar o governo pelos problemas sociais e ao mesmo tempo insistir em infringir as leis, sejam elas de trânsito, pagamento de propina, sonegação de impostos. Tal contradição pode ser claramente percebida pelos resultados de uma pesquisa citada na Folha de São Paulo, em que 83% dos entrevistados admitem já ter cometido alguma ação ilegal, enquanto que 74% haviam afirmado sempre obedecer às leis.

A origem dessa atitude não é recente. O famoso jeitinho brasileiro de manobrar a lei para alcançar seus objetivos atua desde o período colonial. Para a elite econômica do país, o jeitinho era uma forma de passar por cima das leis e garantir seus interesses, enquanto para os demais, era a única maneira de se proteger da opressão dos governos e sobreviver diante de um Estado aristocrático. Assim, o jeitinho brasileiro acabou se consolidando como uma prática aparentemente correta de infringir o código civil.

O resultado dessa esquizofrenia moral é um ciclo vicioso em que a população justifica suas infrações na corrupção do governo, e o governo continua corrupto porque é, nada mais, nada menos, que um espelho da sociedade que pratica ações ilícitas. De acordo com pesquisa do Datafolha, a porcentagem de venda de voto varia entre 8% e 19% dos eleitores, dependendo da região do Brasil. Como então é possível exigir transparência do governo, se falta interesse da população em elegê-los correta e eticamente?

O problema moral brasileiro poderia ser resolvido na base da sociedade: a educação. As escolas deveriam ser direcionadas para se preocuparem em promover uma educação moral e ética, em vista de formar pessoas engajadas e conscientizadas. Além disso, ainda falta às escolas oferecer uma educação política, direcionando os alunos a analisar e eleger com consciência um candidato, enfatizando a importância dessa decisão para podermos chegar mais próximos de uma sociedade mais ética e democrática.

Dissertação com base em proposta de redação de vestibular ou ENEM: "Esquizofrenia moral brasileira" (não tive criatividade para dar outro título e não consegui lembrar de onde era a proposta)