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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A construção do novo homem

No domingo, em um espaço de discussão sobre o feminismo, surgiu a indagação: como construir o novo homem, pra além de somente desconstruir o senso comum machista atual?

Como ir pra além de dizer o que é negativo, o que é reprodução da opressão estrutural do patriarcado, e sermos propositivos pra apontar quais os valores que queremos para os homens?
Cada vez mais percebo a importância desse debate. Porque não basta que nós mulheres entendamos a situação na qual fomos colocadas de submissão na sociedade, e nos empoderemos e saibamos resistir e apontar para os nossos companheiros o que precisa mudar. Pra além disso, nos defrontamos com o desafio de pensar e impulsionar o exercitar os novos valores que queremos em nossos companheiros.
O aprofundamento teórico, aliado com as experiências reais no cotidiano, tem me mostrado como esse terreno ainda é difícil e espinhoso. Como estamos presos às construções sociais que nos foram impostas, e como desconstruir esse processo é lento e nunca se esgota.
Dando minha contribuição sobre o assunto da construção do novo homem, acredito que um dos pontos chave é a questão da sensibilidade. E que passa por muito mais do que a afirmação genérica de que "mulher é sensível, homem é insensível".
Outro dia, relatando um ocorrido pra uma companheira, ela me apresentou uma ótima definição: "insensibilidade não intencional". E acho que isso resume muito o que lidamos no cotidiano das nossas relações com homens amigos, parentes, companheiros, e que se firmam como um aspecto muito subjetivo e de difícil análise.
Para os novos homens, queremos que aprendam a sensibilidade, a sensibilidade que vá pra além da superficialidade, a sensibilidade que vá pra além das relações amorosas, mas a sensibilidade que pressupõe um compromisso com os outros. E um compromisso com os sentimentos de todas as pessoas à nossa volta, partindo do entendimento que nos relacionamos cotidianamente com homens e mulheres em muitos níveis afetivos.
E que é necessário estar conscientemente o tempo todo INTENCIONALIZANDO a sensibilidade. Que não se pode se esconder atrás de justificativas como "esqueci", "estava ocupado", "não tive tempo", que é necessário ser intensamente ativo nas relações. Que demonstrar atenção, cuidado, interesse para com as pessoas constantemente é fundamental. Que se preocupar com o outro vai desde valorizar o tempo, a dedicação, a confiança, a disposição que o outro dedica a você. E que o esforço de percepção desses elementos subjetivos das relações humanas é essencial. Que a sensibilidade passa por perceber todos esses aspectos, perceber emoções, debilidades, dificuldades, respeitá-las e responder a elas ativamente e com sinceridade.
A nós mulheres, já nos foi forjada parte dessa sensibilidade, na forma do cuidado com o outro, inclusive acima de nós mesmas.
E ainda nos resta o desafio de canalizar essa sensibilidade para relações que também nos respeitem, e que exerçamos essa sensibilidade de forma consciente, e não apenas como reprodução do padrão que nos foi imposto.
Aqui fica minha contribuição, principalmente para todos os companheiros.
E seguimos no desafio da construção de novos homens e novas mulheres pra uma nova sociedade humana e justa.

domingo, 13 de abril de 2014

Dados sobre a violência no Brasil

Ouço muito falar de violência crescente no Brasil e como é um país perigoso e etc. Mas é fácil jogar dados, números, que nada representam, que nada mostram as causas da elevada taxa de homicídios. E é claro que a classe média brada sobre isso como se estivessem a cada dia sendo mais ameaçada.
Mas não precisam temer! Se você tem o privilégio de ser branco no Brasil,  mal precisa se preocupar.

"Podemos verificar que no conjunto da população: 
• O número de vítimas brancas caiu de 18.867 em 2002 para 13.895 em 2011, o que representou um significativo decréscimo: 26,4%. 
• Já as vítimas negras cresceram de 26.952 para 35.297 no mesmo período, isto é, um aumento de 30,6%. 
• Assim, a participação branca no total de homicídios do país cai de 41% em 2002, para 28,2% em 2011. Já a participação negra, que já era elevada em 2002, 58,6%, cresce mais ainda, vai para 71.4%. 
• Com esse diferencial a vitimização negra passa de 42,9% em 2002 – nesse ano morrem proporcionalmente 42,9% mais vítimas negras que brancas – para 153,4% em 2011, em um crescimento contínuo, ano a ano, dessa vitimização."

E também:

"Outro dado preocupante do mesmo estudo é o total de óbitos da população masculina negra referente a causas externas evitáveis, que corresponde a 24,3%. A porcentagem inclui homicídios (48%), catástrofes no trânsito (24%) e outros acidentes, e é mais incidente na faixa de 15 aos 29 anos.

Na população branca, o índice total de óbitos por causas evitáveis equivale a 14,1%, sendo que a proporção relativa a homicídios é bem mais baixa, 36,3%. "Os negros ainda estão mais expostos à violência, justamente por causa do preconceito", lamenta Ana Amélia.

As maiores proporções de pobreza também podem influenciar o número de homicídios. Segundo o Ipea, a população idosa negra masculina que vive em domicílios com renda menor ou igual a meio salário mínimo é superior a 50%, enquanto a de brancos não chega a 30%. "Infelizmente, a desigualdade social conduz os negros com mais frequência à marginalidade", constata Francisco."

Ah, e importante, há apenas (ou não) 6,5% mais negros (o termo inclui preto e pardo) que brancos no Brasil.

Isso só mostra que temos problemas muito maiores no nosso país, do que a nossa mesquinha preocupação com nossa segurança.

Fontes:
http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2013/mapa2013_homicidios_juventude.pdf
http://www.conselhos.mg.gov.br/ccn/noticia/negros-sao-maioria-no-pais
http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2013/10/18/negros-sao-70-das-vitimas-de-assassinatos-no-brasil-reafirma-ipea/

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Mundo Invertido

"Inverta o termo de gênero homem por mulher. Imagine que a palavra mulher inclui, é claro, também o homem, porque seria a palavra mulher que definiria o gênero humano. Imagine que sempre viveu em uma sociedade semelhante à nossa na qual desde que éramos crianças a palavra mulher era usada para denominar tanto o pai como a mãe. Isto é, quando nesta sociedade dizemos mulher estamos incluindo, às vezes sim, às vezes não, os homens (Como você se sente pelo fato de que se identifiquem homens e mulheres com uma palavra feminina?)

Cada dia de sua vida será dessa maneira. Sinta a presença da mulher e a insignificância do homem. Pense na história da humanidade construída, como é lógico, pelas grandes mulheres, as heroínas da pátria, as cientistas, sábias e inventoras. Sinta o poder e a autoridade das mulheres. Os bustos e retratos das mulheres que fizeram história estão em todos os edifícios públicos, nos parques e nos selos. Seus nomes estão nas avenidas e nas ruas. Quando há nomes de homens, geralmente são os esposos, amantes, pais ou filhos das grandes mulheres ou são homens que só existem na fértil imaginação das mulheres (Você pode imaginar uma cidade repleta de imagens das grandes matriarcas? Como é que você se sente em uma cidade assim?).

Recorde como eram as famílias nos filmes, nas telenovelas, nos romances, e talvez em sua própria família. Recorde que a mãe sai todos os dias para trabalhar e o pai fica em casa limpando, cozinhando, lavando, cuidando do bebê, indo ao mercado, procurando alguém para consertar algo que se quebrou ou desmontou em casa, pedindo desculpas ao vizinho pela janela que a Mariazinha quebrou, procurando Rosinha para passar-lhe uma bronca, fazendo contas para saber porque o dinheiro não dá e milhares de outras coisas.

Mas todas crêem e dizem que quem trabalha é a mãe. É ela quem dá o dinheiro ao pai para que compre as coisas que toda a família necessita. O pai fica em casa e não trabalha. O pai bronqueia e se queixa. E quando a mãe chega todas devem estar quietinhas, o pai e todas as filhas, porque a mãe fica mal-humorada, chega muito cansada do trabalho e não tem porque ouvir e tolerar as bobagens da casa. Aos domingos toda a família sai para passear, mas o pai não brinca com você, ele continua com a cozinha e “peguem isso, não façam aquilo”. Em compensação a mãe está feliz, jogando futebol, correndo com a cachorra, comprando sorvetes (Como é que você sente esta distribuição da autoridade dentro de casa? Você pode imaginar o pai fazendo todo o serviço de casa? Como é que você imagina um pai que faz tudo dentro de casa? Com quem você se identifica? De quem você sente pena? Acha que é justo ou injusto?).

Lembre-se que tudo o que você leu durante toda a sua vida só usa pronomes femininos, ela, dela, delas, mesmo quando a referência era a meninas e meninos, mulheres e homens. Lembre-se do livro em que você aprendeu a ler: “a mãe move o mundo; o pai pega os pratos”. Lembre-se de que apesar de que desde pequena disseram a você que as mulheres e os homens são iguais, nas telenovelas, no cinema, nas canções, isso não é assim. As mulheres são as heroínas, as que fazem coisas importantes e se movem na esfera pública. Os homens, quando aparecem, são o bandido do filme, o que abandonou a heroína ou o tonto que escolheu mal a sua mulher.

Toda a vida dos homens gira ao redor de sua mulher e parece que eles só pensam em sua aparência física. Além do mais, os homens nunca são solidários entre eles, sempre fofocando e falando de coisas sem importância ou falando mal do seu melhor amigo.

Nos contos de fadas, os homens sempre têm que esperar serem salvos por uma mulher forte e boa que lhes dará tudo o que eles não podem fazer por si mesmos (Como você se sente sabendo que os homens devem ser salvos pelas mulheres?).

Recorde que embora sempre tenham dito a você que a Deusa não tem sexo, sempre que você viu a imagem dela nas igrejas e santinhos, é uma mulher com uma longa cabeleira branca e na Igreja Católica só as mulheres podem rezar missa e só elas foram eleitas Mamas da Santa Igreja. E, embora na Bíblia exista um relato de que a Deusa criou a mulher e o homem no mesmo ato, o relato mais difundido e o que se conta para as meninas é o de Eva e Adão em que a Deusa criou primeiro Eva e depois tirou Adão da sua costela, para que Eva não ficasse sozinha no paraíso. Mas depois Adão fez Eva pecar ao convencê-la a comer a fruta proibida e desde então a humanidade inteira sofre por culpa do Adão. (O que você experimentou ao sentir que nós mulheres somos princípio e fim do gênero humano, as criaturas mais importantes e amadas da Deusa? Como isso afeta a sua auto-estima? Você pode imaginar uma Deusa? Você se sente à vontade com a idéia de uma Deusa? E de um Papa mulher, quer dizer, uma Mama? Como você se sentiria em uma missa rezada por uma mulher?).

Lembre-se de que a maioria das vozes no rádio e das caras na televisão e na imprensa, quando se trata de eventos importantes como a nomeação de uma comissão pacificadora, a junta diretora de um banco, a eleição na Federação das Indústrias, a secretaria geral de um sindicato, o FMI, etc., são vozes e caras de mulheres. Lembre-se que a Presidente sempre foi uma mulher e que as ministras e deputadas são mulheres na sua maioria.

A polícia e o exército estão majoritariamente nas mãos das mulheres. E embora aos homens lhes tenha sido dado o direito a voto muito depois de que às mulheres, ninguém questiona a igualdade eleitoral. Recorde que na escola todos os seus livros didáticos falam do ponto de vista feminino, a história relata as façanhas das mulheres, sua luta pela liberdade, pela igualdade e pela sororidade. Nos estudos sociais só se lê o que pensaram as mulheres, o que conquistaram as mulheres, porque o progresso humano foi feito por elas e é medido de acordo com o que elas consideram importante.

Em anatomia é o corpo da mulher que é usado para explicar o sistema respiratório, o sistema circulatório, etc. No esporte, os importantes são os esportes que as mulheres praticam… afinal de contas, na Copa do Mundo só os times femininos participam. As compositoras de música são sempre mulheres, com raras exceções, e as grandes artistas plásticas reconhecidas mundialmente são mulheres. A literatura mundial é aquela escrita pelas mulheres. Os romances, contos e poesias dos homens são apenas literatura masculina. E quando há perigo de guerra ou extinção do planeta, todas as que têm o poder, de evitá-la ou não, são mulheres, mesmo que os homens, junto com suas filhas, saiam às ruas para protestar e lutar pelos Direitos da Mulher, ou como são chamados agora, “Direitos Humanos”.

Lembre-se de que o pai sempre disse que o mundo é assim, não porque não se queira dar importância aos homens – suas caras e seus corpos são vistos nos comerciais e, é claro, nos concursos de beleza – mas porque na realidade a maioria das pessoas que se movem nas esferas de decisão, nas esferas importantes, são mulheres. Embora todos os homens saibam que atrás de toda grande mulher há um bom homem. (Como você se sente sabendo que é a mulher o paradigma do humano? Você consegue imaginar uma esfera pública povoada só de mulheres? Consegue imaginar uma Assembleia Legislativa ou um Congresso composto só por mulheres? O que você sente ao pensar nesse Congresso? O que você sente quando imagina um concurso de beleza de homens?).

Sinta-se verdadeiramente tranquila e segura com o fato de que nós, mulheres, somos as líderes, os centros de poder, as principais e essenciais em tudo. Que somos nós, mulheres, que outorgamos o voto ao homem e que decidimos o destino do planeta em nome da humanidade. O homem, cujo papel natural é o de esposo e pai, encontra sua satisfação por meio de seu sacrifício por sua família, suas filhas e por dar um oásis de paz a sua senhora. Isto é natural, pois todas conhecemos as diferenças biológicas entre os sexos. Pense na explicação biológica óbvia: a mulher entrega seu corpo inteiro para a reprodução da espécie durante a gravidez e a amamentação e dessa forma, ao homem lhe cabe fazer todo o resto. Além do mais, o corpo da mulher é o paradigma – o desenho ou construção de seu corpo é o protótipo do corpo humano – pois seus órgãos genitais são compactos e internos, protegidos dentro do corpo. Seu corpo tem menos pelos, característica importante que a diferencia dos primatas, enquanto o homem, muito mais peludo, está mais próximo dos macacos dos quais descende. Pense que os órgãos genitais masculinos são mais expostos, prova de que os homens devem ser educados a brincar com cautela, para assegurar a continuação da espécie. A vulnerabilidade masculina obviamente torna os homens necessitados de proteção. E está cientificamente comprovado que os homens suportam menos a dor e estresse, e têm uma vida mais curta que as mulheres. Assim, é melhor que permaneçam dentro de suas casas e não façam nada mais pesado que os serviços domésticos. (O que você sente quando ouve dizer que a mulher é biologicamente mais forte? Como você se sente com a idéia de que o corpo da mulher seja o paradigma do corpo humano? Acha justo que os homens se encarreguem da criação das crianças e de cuidar das meninas?).

Portanto, é a própria natureza quem determina que os homens são mais passivos que as mulheres e que seu desejo sexual é o de ser simbolicamente envolvidos pelo corpo protetor de uma mulher. Os homens psicologicamente anseiam por essa proteção, tomando plena consciência de sua masculinidade no momento do envolvimento sexual, sentindo-se expostos e vulneráveis em qualquer outra situação. Segismunda Freud, que apesar de ser mulher sabe mais sobre a sexualidade masculina que os próprios homens, já disse que o macho não alcança a verdadeira maturidade enquanto não conseguir vencer sua tendência ao orgasmo fálico e passar para o orgasmo testicular. Quando consegue, finalmente se torna um “homem completo” e pode deixar-se absorver pela mulher. (Você consegue evocar suas experiências sexuais? A sua sexualidade é integral, completa, ou mutilada? Como é que você se sente quando ouve dizer que é uma mulher a que sabe mais sobre a sexualidade dos homens?).

Mas se o homem não aceita tal visão e continua aferrado ao orgasmo fálico, as teorias psicanalíticas, universalmente aceitas e cientificamente comprovadas, demonstram que é porque esse homem, inconscientemente, está rejeitando sua masculinidade. Deve fazer psicoterapia para que seja ensinado a aceitar a sua verdadeira natureza. É claro que essa terapia será ministrada por uma psicóloga que tenha a educação e a sabedoria para facilitar a abertura que se requer por parte do homem para que reconheça sua natureza masculina e possa crescer em busca do seu verdadeiro eu, aceitando seu destino biológico como base moral da família. (Você consegue evocar relações sexuais satisfatórias? Por que foram satisfatórias? Você pode imaginar uma terapeuta falando sobre a “natureza masculina”? O que você sente ao pensar nessa natureza masculina?).

Para ajudar o homem a vencer sua resistência em aceitar seu verdadeiro destino, a terapeuta o levará a tomar contato com o menino que vive dentro dele. Que recorde como invejava a liberdade que suas mães davam à sua irmã. Ela podia correr, subir em árvores e andar a cavalo sem se preocupar em maltratar seus órgãos genitais. Ele lembra também que ela podia usar tênis e shorts, enquanto ele tinha que calçar esses sapatinhos de verniz que lhe machucavam os pés… Rapidamente a terapeuta o afasta desse tipo de pensamentos que fomenta horríveis movimentos masculinistas que são liderados por homens feios e frustrados que não conseguiram uma mulher que os desejem e os protejam. A terapeuta lhe explicará que, obviamente, como sua irmã tem tanta liberdade de movimento, é preciso estimulá-la para desenvolver seu corpo e sua mente para as grandes responsabilidades que a esperam em sua vida adulta. A terapeuta o ajudará a entender que a vulnerabilidade masculina necessita da proteção feminina. Por isso, seu papel nesta vida é menos ativo e a ele são ensinadas as virtudes da abnegação do sacrifício. (Que tipo de sentimentos você sente no seu interior? Como você sente a roupa que está usando agora?).

Por tudo isso, à mulher corresponde a fortaleza, ao homem a observação, a graça, a nutrição, a abnegação. Atrás de toda grande mulher, há um bom homem. O mundo é um berço que se move pelas mãos de um homem abnegado. O homem é um ser incompleto, por isso necessita que sua mulher lhe dê filhas para sentir-se finalmente completo. O homem é do lar, a mulher da rua, o homem se realiza dentro da esfera privada, a mulher na pública. A mulher é forte, independente, racional, por isso não necessita da proteção de sua casa e gosta de andar pelas ruas com suas amigas. (Você consegue sentir-se poderosa por sua capacidade de continuar a espécie e dar dignidade ao homem? O que se sente ao saber que os homens são incompletos, carentes de proteção? Como você se sente sabendo que as mulheres andam pelas ruas e que isso é “natural”?)

Devido à sua inveja do clitóris, ele aprende a esconder seus órgãos genitais e aprende a sentir-se envergonhado e sujo por suas ejaculações noturnas. Aprende a depilar as pernas, as axilas, o peito, a barba e até a usar desodorantes testiculares para sentir-se como um bonequinho, um verdadeiro Ken. Inconscientemente sabe que as mulheres gostam dos jovenzinhos porque são mais dóceis e lindos e por isso tem que tratar de parecer sempre jovem. As mulheres, em compensação, não têm que se preocupar demasiado com seu físico porque elas são admiradas por sua inteligência e força e sabem que sempre poderão conseguir um marido porque eles são estimulados a sonhar com o casamento como única alternativa a sua vida. Além do mais, todos os jovenzinhos acham atraente uma mulher grisalha, com experiência e dinheiro. Eles são ensinados a sonhar com o dia em que sua “senhora” lhe entregará uma recém-nascida mulher para que a cuide e leve seu nome. Sabe que se for um menino, ele é quem falhou, mas em todo caso pode seguir tentando… (Percorra seu corpo, grave os sentimentos que se mobilizaram.)"


Retirado do Manual de Capacitação das Mulheres Jovens, elaborado pela Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW) e pela Instituto Latino-Americano para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinquente (ILANUD).


terça-feira, 21 de agosto de 2012

A incrível incompetência desse sistema de merda

A cada dia minha paciência esvai-se como em uma ampulheta em que resta pouca areia no topo. A cada situação, é como se mais um grito se fizesse ouvir dentre todos os outros insatisfeitos nesse mundo. Porque, como se não bastasse a injustiça e a devastação devido a esse sistema de merda que é o capitalismo, ainda temos que aturar a sua mediocridade e incrível incompetência em fazer o que se propõe, minimamente, a fazer.

Por que o capitalismo é um sistema de merda? Por todos os motivos que já sabemos e não cansamos de repetir: desigualdade social, milhões de pessoas passam fome, enquanto alguns se esbanjam com refeições de R$100, milhões ganham menos de U$1 por dia, enquanto 1 ganha milhões por mês; a devastação ambiental segue, em grande parte, impune, já tendo destruído milhões de hectares de florestas e poluído outros milhares de rios, além de intoxicar o ar que respiramos; as pessoas devem seguir padrões estéticos, comportamentais estabelecidos por uma mídia controladora; nossa saúde está definhando, devido aos padrões alimentares impostos pela hegemonia ocidental. E, por último (não verdadeiramente, pois há muitos outros motivos), o dinheiro está acima das pessoas.

O dinheiro importa às pessoas mais que elas mesmas. O dinheiro é mais importante pras pessoas do que suas saúdes, seus amigos, suas famílias, suas alegrias, suas tristezas. E por quê? Porque as empresas querem ganhar dinheiro, e pra isso, você precisa consumir, e pra consumir, você precisa ganhar dinheiro. Quando trabalhamos, ganhamos dinheiro por prestar um serviço a uma empresa. E quando gastamos, gastamos dinheiro, comprando o serviço de uma empresa.

E por que esse sistema é incrivelmente incompetente? Porque, tudo bem, já aceitamos que precisamos trabalhar pra ter dinheiro e girar esse sistema de merda, e já aceitamos todas as injustiças e todos os prejuízos do capitalismo a nós mesmos, mas, ALÉM DISSO, eles conseguem falhar em fazer a única coisa que se propõe a fazer: nos vender produtos e serviços. Tudo bem, a gente não liga que nossos celulares durem apenas 2 anos, que os computadores durem 3, que uma geladeira dure 5. Mas, por favor, não nos faça ter que ligar e reclamar de um problema ANTES do produto chegar às nossas casas. Por favor, AO MENOS, entregue o produto certo e funcionando a nós.

Hoje em dia os call centers estão bombando. Não se faz mais nada pessoalmente. Como se o capitalismo já não tirasse todo o nosso tempo, ainda temos que ter o tempo de ligar para reclamar. Por exemplo, comprei um armário há cerca de 5 meses. Até hoje estou sem uma gaveta, porque faltou uma peça. Quantas vezes já liguei lá: quase 10. É claro que já tomaram providências: me mandaram mais peças erradas. E é claro que eles sempre falam que vão te ligar de volta. Nunca ligam. O pior é que os idiotas perdem dinheiro tendo que me mandar de novo, e eu perco meu tempo, paciência e direito ao que comprei. Ou seja: incompetência.

Quantos desses problemas temos que aguentar? De repente sua internet não funciona, o produto que você comprou não tem no estoque, vem com defeito, quebrado... E temos que ligar, esperar, ligar... Procon? Daqui uns meses resolvem seu problema. E quem tem tempo, paciência pra lidar com tudo isso? Talvez  seja só mais uma estratégia deles, apesar de eu só conseguir enxergar a incompetência e não ganhos. No fim, talvez valha mais a pena para eles diminuir os custos com serviços precários e pagar a mais pelo aumento de problemas, do que oferecer um serviço de qualidade. Porque, se você for pensar, eles não te pagam pelo seu tempo sem o produto e nem pelo tempo perdido.
É, muito obrigada, capitalismo.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A mídia e a questão na USP

Eu já sabia que a mídia distorcia os acontecimentos, favorecia um ponto de vista. Mas, ultimamente, tenho descoberto que é muito mais que isso. A imprensa, de fato, manipula os dados e pode fornecer uma visão totalmente errada da realidade. E quando não faz isso, no mínimo, expõe as informações de forma a favorecer uma ou outra interpretação.

Isso se tornou claro com todos os acontecimentos envolvendo a Polícia Militar e os estudantes da USP São Paulo. Os alunos, insatisfeitos com o convênio com a Polícia Militar (feito pelo reitor de forma autoritária e imposta) para atuar no Campus e suas constantes abordagens e revistas, se indignaram quando três estudantes que fumavam maconha foram abordados e tratados como criminosos. Revoltados, tentaram impedir a PM de levar os alunos e em seguida ocuparam e FFLECH. Pronto: para a mídia, e todos os que nela acreditam, maconheiros playboyzinhos protestam contra a PM no campus para poderem fumar em paz.

Depois de realizada uma assembleia geral na USP que, aparentemente, foi contra a ocupação da reitoria, um grupo de alunos resolveu ocupá-la mesmo assim. E mostrando o caráter repressivo da atuação da PM no campus, depois de uma semana e a recusa dos manifestantes de desocuparem a reitoria, foi mandada a tropa de choque, com 400 policiais, 2 helicópteros e cavalaria para retirar menos de 100 estudantes (e alguns funcionários) desarmados. Apesar da PM afirmar que a reintegração de posse foi pacífica e tranquila, alunos declararam terem sido colocados em salas escuras, separados das meninas, na qual foram agredidos por policiais sem identificação. Também uma menina foi levada sozinha para uma sala, da qual ouviu-se seus gritos por 30 minutos. Há quem diga que a ação da PM lembrou os tenebrosos tempos da ditadura.

A imprensa diz que haviam móveis quebrados e todo o tipo de depredação na reitoria, mas uma aluna afirma que viu os policiais quebrando tudo, antes que deixassem a imprensa entrar. 73 ocupantes foram presos e libertados alguns dias depois, após a fiança ter sido paga. Os dados são muitos e muitos, e se confundem entre si. No meio desse caos, temos a mídia e policiais dizendo uma coisa, e toda a população a favor deles; e os estudantes que presenciaram, e também os demais, dizendo outras coisas. Assim, fica difícil saber o que é verdade e sabemos que sempre haverá exagero de todas partes. Mas a mídia é capaz de exagerar descaradamente.

Depois de decidida greve em várias faculdades da USP em protesto à prisão dos estudantes, à violência e presença da PM e contra o reitor Rodas, foi realizada uma Assembleia Geral no CAASO (USP São Calos) (precedida de um debate a respeito da segurança e da PM no campus no dia anterior). Foi um ato de democracia, um lugar de discussão, debate e decisão, com uma grande representatividade, mais 1000 alunos (cerca de 20%), coisa raramente vista no CAASO. A Assembleia teve como pontos principais a questão da presença da PM no campus, e se apoiaríamos os atos de São Paulo, tendo sido incluído vários pontos, como o "Fora Rodas". Legalização da maconha? Isso ninguém sequer citou. Dois ou três comentaram sobre a droga, alguns diziam que eram contra o uso no campus, mas foi enfatizado que o foco não era assim. Mesmo assim, no dia seguinte, uma reportagem a respeito do evento fez questão de colocar a maconha como algo que foi apontado na discussão, além de enfatizar o consumo de bebida alcoólica durante a Assembleia. Estando eu presente durante todo o acontecimento, sei o que realmente foi pautado e discutido e percebo como, de fato, a mídia atua: da forma que acha melhor.

Assembleia CAASO: Fora Rodas!

Por fim, foi deliberado em São Carlos indicativo de greve e a paralisação dos estudantes da USP durante a quinta-feira (17) e a sexta-feira(18) (sim, pensado para que não fosse dito que estávamos emendando feriado), com atividades programadas, como debates e discussões a respeito da gestão e da segurança no campus, atos públicos com passeatas, conversa entre cursos e assembleia para novas decisões. O objetivo da paralisação é, além de ser uma forma de protesto, aprofundar o debate dos assuntos em questão e permitir que sejam tomadas novas decisões a respeito de próximas ações. Agora esperaremos a próxima posição da mídia.

Apesar das críticas, a mídia vêm, nos últimos dias, tentando mostrar uma posição mais neutra. Começa a colocar quais são as reivindicações dos estudantes, excluindo a legalização da maconha delas, começa a ver com olhos mais críticos o vandalismo "cometido" pelos estudantes. Mesmo assim, ainda há a predominância de um dos lados.

Por fim, acho importante colocar explicitamente algumas reivindicações dos estudantes, grevistas, paralisados, ou simpatizantes:
  • Fim do convênio com a PM no campus;
  • Outras medidas de segurança como: melhorar guarda universitária, aumentar iluminação e aumentar circulação de pessoas no campus (abertura do metrô);
  • Renúncia do reitor Rodas;
  • Fim dos processos administrativos contra estudantes e funcionários por razões políticas;
  • Eleições diretas para reitor e representação paritária na universidade;

É muito difícil, dentro de tudo que o conflito na USP envolve, escolher apenas algumas coisas para abordar, mas tentei resumir alguns tópicos de forma clara, apontando algumas coisas que fossem relevantes. Um tópico que ficou deficiente foi a questão do Rodas, que pode ser melhor enfocado na próxima vez.

Para quaisquer comentários, críticas, sugestões, correções, o espaço está aberto.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Contra o novo Código Florestal

Na terça-feira, dia 10 de maio, nós, SAPA (Secretaria Acadêmica Pró-Ambiental), estudantes de Engenharia Ambiental da USP e de Biologia da UFSCar, realizamos uma manifestação em São Carlos contra as alterações do Código Florestal, propostas por Aldo Rebelo e em votação no dito dia. O ato foi feito com o intuito de entregar panfletos e conversar com as pessoas na rua, a fim de informar a população da cidade sobre o que estava ocorrendo. A nossa rota foi da concentração no CAASO, saindo pela Carlos Botelho, até o Mercado Municipal da Cidade, onde paramos e focamos na panfletagem.
Além das marchinhas que fomos tocando e cantando pelo caminho, e os diversos cartazes com frases manifestando nossa opinião contrária ao novo Código, tivemos 10 minutos na tribuna livre da Câmara Municipal de Vereadores para falar da nossa causa e pedir apoio através de uma moção de repúdio à alteração da legislação. Tal moção foi obtida com sucesso, e o nosso ato teve uma grande repercussão na mídia local, sendo divulgado em jornais e rádios da cidade, através de notícias e entrevistas com os participantes.

Infelizmente, ontem, dia 24, o novo Código Florestal foi aprovado pela Câmara de Deputados e encaminhado para o Senado, apesar da contrariedade do governo. O projeto de lei diminui as APPs (Área de Preservação Permanente) a margem de rios de até 10m de largura que devem ser recompostas; permite a manutenção do cultivo de espécies lenhosas em APPS de topos de morros, montes e serras; perdoa multas e crimes ambientais em troca do comprometimento com a restauração das áreas que foram degradadas até 2008; permite que APPs seja contada como reserva legal e também que ocorra a venda do excesso dessas últimas; além de descentralizar parte do poder de fiscalização e complementaridade do Código, o que tende a diminuir o controle das reservas.


Apesar disso, a luta ainda não acabou. O projeto ainda deve passar pelo Senado e pela aprovação da Presidenta, e até lá podemos continuar nos mobilizando, e tentando aumentar o movimento. Nesta terça-feira, foi feita mais uma manifestação, com maior participação de alunos da UFSCar dessa vez, em que, novamente, procuramos chamar a atenção e conversar com a população. Outras cidades também fizeram atos parecidos; e mais ações virão de São Carlos. Vamos continuar lutando!


Quem é de São Carlos e quiser participar dos movimentos e ações, foi criado um grupo de e-mail: codigoflorestalsaocarlos@googlegroups.com é só pedir para ser inscrito


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Esquizofrenia moral brasileira

Há quem ache que todos os problemas do Brasil decorrem da corrupção e da ineficiência da lei no país. Infelizmente, poucos percebem que a raiz do problema encontra-se no paradoxo do discurso ético e moralista do brasileiro, que não corresponde às suas ações.

O típico comportamento brasileiro é reclamar da corrupção entre políticos, culpar o governo pelos problemas sociais e ao mesmo tempo insistir em infringir as leis, sejam elas de trânsito, pagamento de propina, sonegação de impostos. Tal contradição pode ser claramente percebida pelos resultados de uma pesquisa citada na Folha de São Paulo, em que 83% dos entrevistados admitem já ter cometido alguma ação ilegal, enquanto que 74% haviam afirmado sempre obedecer às leis.

A origem dessa atitude não é recente. O famoso jeitinho brasileiro de manobrar a lei para alcançar seus objetivos atua desde o período colonial. Para a elite econômica do país, o jeitinho era uma forma de passar por cima das leis e garantir seus interesses, enquanto para os demais, era a única maneira de se proteger da opressão dos governos e sobreviver diante de um Estado aristocrático. Assim, o jeitinho brasileiro acabou se consolidando como uma prática aparentemente correta de infringir o código civil.

O resultado dessa esquizofrenia moral é um ciclo vicioso em que a população justifica suas infrações na corrupção do governo, e o governo continua corrupto porque é, nada mais, nada menos, que um espelho da sociedade que pratica ações ilícitas. De acordo com pesquisa do Datafolha, a porcentagem de venda de voto varia entre 8% e 19% dos eleitores, dependendo da região do Brasil. Como então é possível exigir transparência do governo, se falta interesse da população em elegê-los correta e eticamente?

O problema moral brasileiro poderia ser resolvido na base da sociedade: a educação. As escolas deveriam ser direcionadas para se preocuparem em promover uma educação moral e ética, em vista de formar pessoas engajadas e conscientizadas. Além disso, ainda falta às escolas oferecer uma educação política, direcionando os alunos a analisar e eleger com consciência um candidato, enfatizando a importância dessa decisão para podermos chegar mais próximos de uma sociedade mais ética e democrática.

Dissertação com base em proposta de redação de vestibular ou ENEM: "Esquizofrenia moral brasileira" (não tive criatividade para dar outro título e não consegui lembrar de onde era a proposta)